Projeto de performance ”Corpos Líquidos” [1/2]

”Corpos Líquidos nasceu a partir das duas obras notáveis de Bauman, Modernidade Líquida e Amor Líquido, não somente baseada nessas obras em especiais mas também nas vivências e experiências com todos os tipos de pessoas e suas relações, desde as amizades, amores inocentes, amores platônicos, abusivos até amizades coloridas. Entender o processo de como as relações se tornaram tão frágeis e muita das vezes abusivas ou exageradas é o que de fato essa performance grita. Passei a observar próprios amigos e seus relacionamentos, viver um pouco de seu mundo e suas brigas, observar pequenos gestos e atitudes, acompanhar dores de perda, distância, nostalgia, principalmente a insegurança e medo (dois fatores extremamente gritantes hoje). Não foi um processo fácil acompanhar relacionamentos e pessoas que cruzaram até aqui, o abuso, medo e insegurança é algo gigante, sem falar o sentimento que passa a ser algo destacável, embora conclua que o sentimento venha ser pequenas emoções tão solitárias hoje. Não somente observei os relacionamentos, mas vivi alguns relacionamentos, homens ou mulheres, o ser humano. Corpos Líquidos é uma performance de coração aberto e pelado, cujo os fragmentos das relações gerais foram captadas e expressadas com o corpo, interpretadas e o corpo agindo e transpirando, muitas vezes trazendo o expectador para uma agonia e inquietação ou na maioria das vezes alguns podem se identificar com o momento performativo presente.

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[Fotos de: Deborah Cabral e Matheus Uchoa]

Além das obras de Bauman e as vivências, trouxe um antigo trabalho de análise semiótica da obra de Magritte chamada ”Les Amants” e no ano de 2016 foi possível apresentar uma performance a partir de sua leitura/interpretação (pessoal) executada na 7ª Mostra de Teatro da Universidade Estadual do Amazonas. A obra ”Les Amants” assim como sua outra obra que apresenta o casal com o tecido/capuz transmitem tantos questionamentos como o mistério, desconhecido e isolamento.

 Les Amants/The Lovers (1928) (Fonte: www.renemagritte.org)

Com as obras de Magritte e a busca por interpretações que dizem a respeito dos rostos cobertos, o capuz, trouxe esse questionamento a Corpos Líquidos e casei com a ideia de Bauman e as vivências – As vezes estamos com pessoas que nem conhecemos ou estamos ali presos com alguém desconhecido, é tudo tão rápido que não é nem possível sentir o outro. O capuz passa essa ideia do mistério, o desconhecido, vergonha talvez e o medo/insegurança. Na obra é possível notar o ato do beijo (que não acontece devido ao tecido) o que torna frustrante e ambas trazem a um isolamento, enquanto na outra apresenta um ar desconhecidos/questionador -.

A questão de não definir gêneros também é pertinente em Corpos Líquidos, não há. O que de fato se encontra presente é apenas dois seres fluídos, Bauman diz  – Os fluídos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam”, “borrifam”, “pingam”; são “filtrados”, “destilados”; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos — contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho -.

A performance Corpos Líquidos se encontra em constante processo, começou a circular durante o Circuito de Artes de Manaus 2017, ela não chega ainda em seus 50% pois é uma performance gradativa pois há muito que gritar, demostrar e criticar com os corpos em ação, colocar em prática no espaço e viver as energias dos expectadores além de captar seus questionamento os quais contribuem como uma força maior para a performance crescer cada vez que é apresentada.”

[Texto extraído dos rascunhos e esboços de CNS]

Abaixo a divulgação:

PERFORMANCE (2)

 

 

 

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Coletivo Oh Manas de volta!

 

Olá queridos, estivemos em um período de hiato e o blog passou por algumas reformas e assim ganhando uma nova perspectiva trazendo a informações e debates sobre a arte, assim como, a cultura que nossa Manaus tem de oferecer. O que mudou no blog?

  • Saída de alguns colunistas e colunas

Felizmente alguns colunistas tiveram que se desligar do coletivo, logo, algumas colunas tiveram que sair. Colunas música, crítica de filmes e moda foram tiradas do ar.

  • Facebook não tá no ar

O Coletivo removeu a página do facebook por tempo indeterminado, o foco é trabalhar no blog e Instagram. Isso não quer dizer que não vamos voltar para o facebook, estamos organizando as coisas uma por vez.

  • Pesquisa e informação

O novo blog vai agregar mais conteúdos voltados a pesquisa e discussão para amantes da arte, artistas visuais, público das artes cênicas, estudante de artes e afins o blog vem trazendo informações e auxilio na pesquisa.

  • Convidados especiais

Como parte do novo, o Coletivo terá convidados especiais desde artistas, até professores para publicar conteúdos pelo blog.

 

A partir do dia 14 de agosto, novas postagens!

 

Att.

Coletivo Oh Manas

 

Foto em destaque: Ignoti Nulla Cupido, 1960 de Dorothea Tanning

 

”Uma Sociedade Fluída” O curta-metragem que trata e trabalha a noção de identidade e sexualidade.

O curta-metragem ”Uma Sociedade Fluída” surgiu da necessidade de realizar projetos audiovisuais experimentais e com temas de impacto e contemporâneo, um filme de característica fortes e que conta com uma grande produção e colaboração de  artistas, designs  e outros artistas do cenário Manauara. O curta esta sendo produzido pela – Lens Produções – que atua na cidade de Manaus, além disso a produtora apresenta muitos outros projetos de audiovisuais muito bons. Conversamos com o diretor Matheus Mota pra explicar um pouco mais do novo curta:

  • Como surgiu a ideia de ” Uma Sociedade Fluída”? 

M: O projeto surgiu de uma necessidade criativa de realizar um projeto experimental na minha carreira e que trabalhasse com um tema que eu acho muito atraente e ousado como a identidade de gênero e a sexualidade no mundo contemporâneo.

  • Sobre o que trata o curta metragem?

M: O curta-metragem que trabalha a noção de identidade e sexualidade na sociedade contemporânea explorando a transformação física, o desejo carnal, a relação afetiva e/ou amorosa, a luta pela liberdade pessoal e a dor e dificuldade da auto aceitação, um filme que se utiliza da iconicidade para demonstrar a natureza complexa dessas questões.

  • As locações do curta metragem, onde serão?

O filme ainda está em processo de pré-produção e fechamento de locações, mas um dos lugares que irá ser filmado é numa das pontes da Avenida Sete de Setembro.

  • Quem são as pessoas na produção do curta metragem?

Existe uma equipe bem grande para um curta-metragem de baixo orçamento e independente, o figurinista do filme é o Oberdan Nogueira, as produtoras do filme são a Ariel Bentes e Stephane dos Santos, a direção de fotografia irá ser realizada pelo diretor Davi Penafort, a maquiagem irá ser realizada pela Paula Carvalho e a Francine Marie, a direção de arte e a identidade visual do filme está sendo elaborado por mim e vários outros nomes como a Manuela Marinho, Adriana Rocha e Glademir Rodrigues. A edição irá ser distribuída por vários artistas e designers. E o projeto será lançado pela produtora Lens Produções que realizou o filme O Gato.

  • Já temos um elenco? 

O elenco ainda está em processo de fechamento e ainda estamos interessados em mais pessoas que se identificarem com o projeto e se propuserem a participar do mesmo, a ideia é trabalhar com atores e modelos de moda, afinal a premissa do filme é transitar em outras linguagens audiovisuais fora do cinema de narrativa e encontrar traços de fashion films na sua identidade visual

  • Quando começa as filmagens?

A ideia é iniciar as filmagens do filme no final de abril e ir até o meio de maio

  • Tem previsão de estreia? 

A proposta é lançar o filme no último trimestre de 2017

 

Quer conferir mais trabalhos da Lens Produções e do Matheus Mota? Acessem  o site https://www.lensproducoes.com/ e curta a página https://www.facebook.com/producoeslens

Folhas Brancas, de Matheus Mota: https://www.lensproducoes.com/folhasbracas

Lens Produções

 

Além do mais ainda estão escalando o elenco, quer fazer parte? entre em contato com a produtora.

 

Performance arte, a arte que o corpo grita. [1/5]

Há quem diga que a performance arte ainda é vista como um tabu em pleno século XXI, a arte que o corpo fala, grita, esperneia e provoca. A arte que não se compra.

Quem se lembra de Flávio de Carvalho caminhando em direção oposta na procissão de Corpus Christi? Seria uma contradição religiosa ou provocação? Um salve a coragem de Flávio de Carvalho pela Experiência Número 2 que até hoje se questiona as razões pela qual executou tal performance. Em meio ao mar de fiéis fervorosos caminhou o artista que em minutos o mar se tornou turbulento e os cristãos que tanto glorificavam na procissão os mesmos quiseram lixar o artista. Amém, era 1931.

Como provoca e registra na mente do público o ato da performance, como criticar a forma mais sublime e de impacto do mundo da arte sem ao menos vive-la e sentir do gosto. Quando penso e estou em performance meu corpo treme e se energiza e descarrega a todo instante, é um preparo pessoal, um ritual que só quem o pratica sabe do que se trata, é dominar e ser dominado pela energia interna e externa. Nada de encenar.

E os limites do corpo? Existem na arte? Grito por Marina Abramovic e suas ideologias sobre os limites do corpo assim como a profundidade da mente e a questão da intensidade do performer. Não feliz, ainda chamo por Chris Burden que em Shoot fez tremer todos do mundo da arte de 1971 e questionar se tudo aquilo foi arte ou apenas uma cena boba de um artista sem quaisquer lógicas. Era performance, era um chamado, era Burden! Era Body art nascendo!

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”Shoot” de Cris Burden (1971)

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”Rhythm 0” de Marina Abramovic (1974)

 

Nem milhões e nem bilhões se compra essa arte. O artista de performance se doa, se entrega, se prepara, sabe o que faz e o que quer, entra em estado de domínio do ambiente e do êxtase energético de si mesmo. Aspira e cheira o suor que emana do corpo, da carne, do corpo. Reza para si, com sua prece de arte, comedor da arte, explorador do choque e da pincelada final surge sua arte.

*Imagem de destaque: Yves Klein, artista.

Fonte imagens:

http://www.openculture.com/2015/05/watch-chris-burden-get-shot-for-the-sake-of-art-1971.html

 

Por: Caroene

Para a Morte [texto livre]

Meu melhor amigo me disse que quando a gente dorme a nossa alma sai do corpo. E aí a gente voa. E sonha que ta voando.
Eu nunca sonhei que estava voando.
E sonho sempre sempre sempre que estou caindo. Agora mesmo foi assim.
Me sacudi toda na cama com a queda, respiração ofegante, acordei. Doeu aqui, bem aqui sabe ? nessa partezinha específica da alma que se fosse um corpo seria o quadril esquerdo.
Eu não sei sonhar, não sei voar e agora não sei nem dormir.
Tô ao contrário na cama, com os pés virados pra porta mas é só gente morta que dorme com os pés pra porta – isso foi outra amiga que me disse.
Será que estou morta ?
Será que a queda me matou ?
Será que eu vou conseguir dormir de novo ?
Estou tremendo de medo de estar morta. Logo eu que não costumo ter medo da morte. Por favor, morte, não puxe meus pés.

Me deixe sobreviver, eu quero sentir todas as dores possíveis ainda… eu quero me rasgar de dor e depois me prender de alívio. Inventaram drogas por aqui, sabia ? Elas nos livram da dor. Não digo por mal mas falta pouco pra nos livrarem da morte também… você já deve ter percebido que tá mais DIFÍCIL agir, né ? Não está mais tão fácil assim entrar por HIV, ou gripe, ou doença de rato….. eu sei, eu já sei o que você vai dizer: você é a droga mais poderosa de todas, né ? O alívio eterno.

Mas eu preciso sentir mais dor. Não preciso de você ainda, muito obrigada!
Veja só: Eu nunca quebrei um osso. Nunca levei um tiro. Nunca tive dor de dente. Nunca pari um filho.
Não me tire essa possibilidade de sentir. Você é muito pequena diante de todas as dores do mundo, é pequena demais.
Eu quero machucar os quadris da minha alma umas 302 vezes ainda. Quero levar uma facada na alma pra ver como o sangue dela é.
E ela ainda ta aprendendo a voar, há 23 anos minha alma está aprendendo a voar. Não tire isso dela, por favor.
Ela não tem culpa. Eu não tenho culpa.
pela 1ª vez em 23 anos eu não tenho culpa.
Voltarei a dormir, sem culpa, faça o que quiser.
Só me dá licença porque vou virar meus pés pro lado oposto ao da porta. Nada contra você, fique à vontade. É só porque minha amiga falou.
Faça o que quiser. Eu só peço que se tiver que me levar, me leve voando porque eu não aprendi a voar, em 23 anos eu ainda não sei voar nem em sonho nem em vida.

 

Por: Deborah Pereira

Desenho de: Caroene Neves

A Arte Cerâmica e sua relação com o Corpo Feminino Baniwa

A arte Baniwa é relevante e conhecida internacionalmente. Embora esse povo viva na fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela, na tríplice fronteira, são detentores de uma linguagem plástica, com destaque na cerâmica e em suas cestarias repletas de grafismos.

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Fonte: Rosilda Cordeiro – Departamento de Mulheres/FOIRN // walimanai.wordpress.com

 

Os estudos sobre o corpo têm no decorrer de seus escritos alguns desencontros, sendo retratado por vezes não como objeto, mas como sujeito. A literatura antropológica narra algumas semelhanças entre etnias e regras comuns para o manuseio da argila, como por exemplo, o estado menstrual, onde não se pode manuseá-la. A produção cerâmica é desenvolvida com técnicas diferenciadas de produção e complexidade, desde a coleta de matéria-prima até os polidores feitos de sementes. Um ofício totalmente manual e realizado apenas por mulheres, transmitido de forma ligada a valores, onde o que predomina é a transmissão oral em que se destacam ensinamentos passados dentre as gerações.

Realizar um levantamento acerca desta produção é necessária, devido a insuficiência de dados referentes à cultura material. De acordo com Lima (apud. Bertha Ribeiro Org. 1987), é essencial o esforço de reconstituição das culturas, utilizando elementos da cultura material que por muitos é considerada uma temática pouco nobre. Segundo a autora,

Em trabalhos mais recentes, vimos assistindo à retomada do interesse pela cultura material, agora não mais calcado nos antigos propósitos evolucionistas e difusionistas dos primórdios da Antropologia, mas sim no reconhecimento do objeto como a materialização do comportamento dos membros de uma determinada sociedade, comprometido com o entendimento das culturas na sua totalidade. (LIMA, 1987, p. 173).

O corpo é um tema propício para a análise antropológica, tendo como parâmetro o fato dele ser o objeto primordial do homem, carregado de simbologia encarnada entre os Baniwa. O indígena faz do corpo o seu livro, o seu caderno de estudos, o seu portal para com as divindades, concedendo-lhe um patamar valoroso para o seu viver na comunidade.

Por: Paulo Holanda

Imagem de destaque: 

Foto: Thiago Oliveira
Fonte: http://www.larme-ufrj.org/

Referências:

LIMA, Tânia Andrade. Cerâmica Indígena Brasileira, cap. 07. pág. 173- 229. _in: Suma Etnológica Brasileira 2. 2 ed. Petrópolis – RJ: Vozes, 1987.

Eu não sei mais ouvir Chico Buarque […]

Eu não sei mais ouvir Chico Buarque

Eu menstruei junto com a lua em escorpião e to há 3 dias sentindo dor no meu corpo todo. E fora dele. O pior é que eu gosto porque é uma dor tão dor que eu me sinto com existência, sinto o mundo girando e eu dentro e eu fico até tonta, bêbada de todos vocês da terra e de cada centímetro de pelo que cresce em mim.

E aí nisso tudo eu descobri que eu não sei mais ouvir Chico Buarque sem ficar péssima porque eu ouvia muito quando eu tinha uns 15 anos e aí me lembra o Brasil dessa época que estão roubando de mim. E eu tô bem puta com isso. Muito puta. Extremamente puta- porque eu amo muito o Brasil e eles estão levando dizendo que amam mais que eu, que EU uma mulher menstruada que nesse exato momento tá sentindo até a insignificância que é a Terra ficar mais velha.

Ninguém ama, ninguém sente, ninguém se importa, ninguém existe mais que uma mulher menstruada.

(E mundo, sempre respeitei seu tempo, mas neste instante sopro com força pra te ajudar no giro porque sei que você também sonha em chegar logo na parte do espaço em que não tem mais roda, só dança não-sincronizada de muitas existências).

 

Por: Deborah Pereira

*Pintura de destaque: La Tejedora, 1956 de Remedios Varo